Domingo, 23 de Dezembro de 2007

TIROS


 e-mail do professor Andrea Ciacchi

Caros amigos,
aros amigos, ele pode até não ter percebido. Mas a abertura oficial do Fest Aruanda, ontem à noite, no Hotel Tambaú, desferiu um golpe mortal justamente ao dono da festa, o nosso querido Vladimir Carvalho. Explico logo. Depois da parte ritual da solenidade, e antes de assistirmos a um belo e arguto curta-metragem de Valter Carvalho sobre o seu próprio irmão, e antes do prato forte da noite, que seria o encantador filme de Vladimir, O engenho de Zé Lins, fomos obrigados a assistir a um vídeo dedicado à história da construção do Hotel Tambaú, de autoria de Denise Lemos. O local da festa, assim, rouboua cena, literalmente. O curta, bem produzido tecnicamente, com o apoio da própria gerência do Hotel, nada mais é senão um vídeo institucional, enaltecendo e louvando, inclusive com depoimentos de vários protagonistas de ontem e de hoje, entre os quais, sobretudo, um empolgado e entusiasmado Wills Leal, o futuro radioso que aquele empreendimento, em finais dos anos 60, anunciava e, hoje, confirma. João Pessoa e Tambaú passaram da barbárie à modernidade por obra e graça do Hotel Tambaú. O turismo, finalmente, deslanchava. O cimento marcava o ingresso da cidade na civilização. Sem descontos, sem dó, sem senões. Acontece, porém, que o Hotel Tambaú foi inaugurado, no ano de 1971, exatamente no lugar onde havia um areal repleto de coqueiros e a caiçara dos pescadores, além de ser o ponto preferido dos banhistas. Juntamente com o hotel e a partir da sua inauguração, toda orla passou por modificações na estrutura de serviços, infra-estrutura viária e de outros equipamentos urbanos. A inauguração da ostentosa redoma de concreto armado, tomando o lugar do pequeno galpão de madeira coberto por palhas de coqueiro que servia de abrigo ao trabalho terrestre dos pescadores varreu do mapa a comunidade dos pescadores de Tambaú. Transcrevo, a seguir, alguns depoimentos de pescadores de Tambaú, registrados entre 2004 e 2007 por Luiz Firmino Gonzaga Júnior, que dedicou a sua monografia do curso de Ciências Sociais, na UFPB, com a minha orientação, a esse tema.

Olhe, aquilo ali, aonde hoje, que era no local do hotel, mais no fundo um pouquinho, aquilo ali só era coqueiro, barreira de areia. Meu pai, a gente brincava ali, corria pra lá e pra cá, meu pai saia de noite, levava a gente pra ver a lua, quando ia saindo aqueles morros, a gente brincando por ali, aí pronto, a vida aqui era essa. Meu pai tinha um boxizinho de peixe, saiu já de lá mermo por causa de vários problemas, os caba já queriam tomar conta disso aqui.

Eu vi derrubando os coqueiro! Eu vi derrubando os coqueiro! Eu comia os palmito. Levei muito coco pra casa. derrubaram pra mais de 1.500 pés de coqueiro, as draga, aqueles trator grande derrubando os coqueiro. Bum! Bum! Bum! Derrubando os coqueiro. E a gente era adolescente. Lá onde é o Hotel hoje, lá era onde era a caiçara da gente era lá. A caiçara era lá, e ela se mudou pra cá e eles ainda fizeram esses muro ó, ó [apontando pra o alicerce de um muro construído pelo Hotel Tambaú], que essas área ainda era deles. Eles não queriam nem que a gente... e aí fechar como np lado de lá. Aí o pescador não deixou por causa dessa caiçara quer tava aí. O Capitão do Portos disse “não a caiçara tem que ficar aí”. O Capitão dos Portos daquela época. Não deixou derrubar, não deixou eles murar. Que isso aqui ia ser estacionamento deles também. Se viu que eles tomou o espaço todinho né. O espaço todinho. E sempre é expulsando o espaço do pescador cada vez mais.

... aí o pescador não pôde se intervir. Por quê? Isso veio do Ministério da Marinha. Como é que o pescador ia ter força contra a Marinha? E veio o do Ministério essa ordem, ia fazer o quê? O pescador podia? Não pode. O pescador é auxiliar da Marinha. Mas nesse caso que veio a ordem do Ministério da marinha pra tirar o coqueiral, fazer o Hotel Tambaú e tirar a caiçara pra cá, não tinha nada haver. Né isso né? Fica fora, o pescador não pode ...Os pescadores de Tambaú, essa antiga comunidade tradicional que Mário de Andrade conheceu e registrou, na dança do coco, quando aqui esteve em 1929, foram expulsos do seu território. A partir disso, foram confinados no que hoje é o Bairro de São José, lá por trás do Shopping Manaíra. O progresso, esse anjo avassalador de quem falam Paul Klee e Walter Benjamin, arrasou, literalmente, a natureza e a cultura, tudo junto. Chegaram no seu lugar a modernidade, o progresso, a civilização, as suítes, as piscinas, os mordomos, os turistas, as prostitutas, a desolação. Os cartões de créditos.

Bom: sou saudosista e reacionário, eu sei. E sei também que isso não aconteceu apenas aqui, em João Pessoa, em Tambaú. Os pescadores artesanais do Brasil, do Nordeste ao Rio Grande do Sul, quando tinham o azar de viver e trabalhar perto de cidades que se tornariam grandes e apetitosas, tiveram que deixar espaço para elas. Para o progresso, para a modernidade, etc. etc.

Mas, convenhamos. Exibir isso, com todo o orgulho e toda a empáfia, logo no dia da festa de Vladimir Carvalho? O co-roteirista de Aruanda. O diretor de Romeiros da Guia e de tantos outros filmes que, como todos sabemos, têm constituído um esforço sério e belo de reconhecimento dos tantos esquecidos, marginalizados, excluídos. Que tiro no pé!


Uma vergonha. Uma tristeza... Uma raiva!



Andrea Ciacchi

Professor de Antropologia da Universidade Federal da Paraíba
Coordenador do LaMER (Laboratório de Estudos Antropológicos das Populações Marítimas, Estuarinas e Ribeirinhas/UFPB)



o FEST ARUANDA foi, sem duvida nenhuma, uma pena !
não digo isso pela qualidade dos convidados, alias nem poderia dizer, as mesas foram ótimas ! mas pelo amadorismo com que o festival foi organizado. Também não me refiro aos voluntários que faltaram aulas para estar lá dando suporte pro evento que antes de ser do departamento é nacional e leva o nome da universidade!
digo isso em virtude da falta de direcionamento da organização do evento!
Muitas coisas colaboraram para alguns "erros" - primeiro a falta de publico pra algumas sessões.É  inadmissível que um evento organizado pelo departamento de comunicação a nivel nacional não tenha contado ao menos com os estudantes da área da universidade que o promove ! o motivo é simples :  (não falo em boicote, mas devido ao nível em que o racha do departamento chegou, não há como não pensar que foi esse o motivo!) os estudantes não foram liberados por alguns professores para prestigiar  o evento, salvo alguns que liberaram por completo ou outros que permitiram a participação em alguns dias!
Outro aspecto foi o numero pequeno de voluntários e a pouca coordenação nas atividades que eles desenvolviam. Digo isso pelos milhares de cartazes que no ultimo dia do evento ainda estavam para ser espalhados pela cidade.Digo isso  pela não gravação da palestra de vladimir carvalho! Digo isso pelo fato de não terem levado a serio  o malandro que estava gravando um filme que será lançado em dvd daqui a alguns dias!  falta de cuidado com o que era exibido! O pequeno numero de voluntários talvez tenha sido resultado do medo do chefe de permitir a participação voluntária de alguns estudantes( eu, por exemplo, me ofereci com voluntária três vezes e sempre ouvia " depois tratamos disso"), por que ninguém sabe!
Alem disso o suporte que a propria universidade deu parece ter sido mizero!
o evento merecia ter parado a cidade! por que não?  caramba !
digo isso  pelo  nivel dos debates que  eram espetaculares, digo isso pelo nivel das sessões,  pelas personalidades presentes e pela proposta da coisa!

ah e quanto ao e-mail a cima ! realmente, esse foi outro vergonhoso tiro no pé!

publicado por janaineaires às 22:04
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